NASCIDO para tocar

O palco foi o seu berço, mas não seguiu o guião que lhe apontava um futuro no teatro. As melodias conquistaram-no, mas Laurent Filipe não escolheu a música. A música é que o escolheu a ele

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Entrevista Laurent Filipe

Foi tudo como num sopro. Parece ter sido ontem que o jovem Laurent fitava com admiração uma foto de Louis Armstrong, que lhe viria a ditar o caminho, no encalço deste e de outros ídolos. O primeiro grande passo seria dado no Festival Jazz Cascais, em 1979, a abrir a noite do "gigante" Freddie Hubbard. Antes disso, o agora músico, compositor, produtor, orquestrador e professor já tinha iniciado o seu "percurso", aos 15 anos, com os primeiros discos que gravou para ganhar algum dinheiro… e comprar mais discos. De repente, passaram-se 30 anos, "que foram acontecendo. Digo, um pouco na brincadeira, que aqui não se faz carreira, faz-se um percurso, mais ou menos acidentado. Ao longo destes 30 anos, que passaram rapidíssimo, o que eu fiz foi ter diferentes experiências com as diferentes culturas, sítios, pessoas e projectos", afirma. E quase que lhes perde a conta por entre concertos, discos, música para teatro, poesia musicada, música para cinema, repertório de orquestra e de solistas, jazz, world music, música clássica, música erudita… "Muita música, muitos arquivadores cheios de papelada. A gente olha para aquilo e pergunta: mas o que é que eu faço com isto agora?" [Risos].

Talvez uma rapsódia, para ouvir a história deste português nascido no Brasil por acaso, suíço por ascendência materna, que estudou nos Estados Unidos, tocou um pouco por toda a parte e é cidadão do mundo por vocação. "Sou genuinamente português na nossa relação com o mundo. Portugal, por ser periférico e pequeno, mas aberto e virado para o mar, tem facilidade em abrir-se a novas fronteiras", orgulha-se. Porque sempre achou que a "música era toda uma", a vontade de desbravar fronteiras no panorama musical já se tornou conhecida do público, quando Laurent Filipe se senta na mesa do júri no programa de talentos Ídolos, em que participa pelo segundo ano consecutivo. "Sempre estive interessado em tudo aquilo que eu considerasse boa música. Não me interessa se é morna ou heavy metal – se o som me seduzir, estou aberto a ele", garante.

A música chamou-o cedo e nunca mais se separaram. Filho do actor Sinde Filipe, poderia ter enveredado pelo teatro ou pelo cinema, e ainda se lembra da primeira vez que subiu ao palco, numa peça no Liceu Francês, onde estudou. Apesar do bom desempenho, o destino parecia estar-lhe fadado. "O meu pai, na brincadeira, disse-me: 'Tu não tens jeito para isso, é melhor seguires outra vocação.' Acho que ele já sabia que a minha inclinação era mesmo para a música", recorda. Anos mais tarde, chegou a representar pequenos papéis em produções da TVI e da SIC, mas rejeita ser considerado actor. Laurent Filipe diz mesmo que "actor é aquele que navegou muitos mares e viveu muitas personagens. Eu sou actuante, que é diferente".

Para colocar todos os papéis em harmonia, o agora também director-geral do Musibéria, um centro de formação e investigação de música e danças ibéricas, em Serpa, faz "malabarismo", mas nem por um momento se arrepende. O ritmo frenético das gravações do programa irá mantê-lo ocupado durante mais alguns meses, mas nem isso impediu Laurent Filipe de produzir uma colecção de dois audiolivros com poemas de Fernando Pessoa e Alexandre O'Neill, aos quais o pai, Sinde Filipe, emprestou a voz. Um projecto que lhe deu imenso prazer, "porque me remete para aqueles filmes que eu não fiz, e é como criar um filme sem imagens".

Falando de imagem, para quem chega aos lares de milhares de portugueses todos os domingos, a aparência preocupa, mas não é uma obsessão. A roupa tem de ser, sobretudo, funcional. "Como dizia Churchill, os meus gostos são simples, gosto do que há de melhor", remata. Os três ou quatro fatos, modelos clássicos que comprou "para a vida inteira, os bons pares de sapatos e as camisas bem cortadas enchem-lhe as medidas no dia-a-dia, mas quando tem de aparecer no pequeno ecrã conta com alguma ajuda extra. "Na televisão, temos um problema com esta recorrente presença: ou nos fornecem guarda-roupa, ou andamos sempre à Mao Tsé-tung, com a mesma roupa!" [Risos]

Sempre ávido de novas experiências, aceitou no início do ano um convite da revista masculina FHM para ser capa da última edição Especial Moda Primavera-Verão 2010. "Foi estranho, porque não sou modelo; mas também foi divertido." Porém, o seu acessório favorito continua a ser o seu trompete, porque todos os dias sente necessidade de tocar. "Hoje não o trouxe comigo, mas normalmente trago sempre um e deixo outros guardados em vários sítios", confessa. O percurso de Laurent Filipe conta-se num sopro. O sopro do trompete.

Ana Rita Lúcio

Sobretudo: Old Ridel | Camisa em algodão: Giovanni | Galli Chapéu em palha: Hurley | Sapatos em pele: Aldo

Laurent Filipe
 
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